O período getulista foi assinalado por grandes conflitos. Aliás, iniciou-se com a Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas à presidência da república. Depois, vieram a Revolução Constitucionalista de 1932, a Intentona Comunista de 1935, o Golpe de 1937, a Segunda Guerra Mundial, na qual o Brasil entrou em 1942. Como fim da guerra, em 1945, uma onda liberal varreu a mundo, influenciando a vida política do Brasil. Não por acasa, a Era Vargas terminou justamente nesse ano.

Getúlio já governara o país por 15 anos, deixando um rasto de polêmica e controvérsia sobre sua pessoa. Alguns o amavam freneticamente, outros o odiavam estupendo rancor. Uns apontavam em Vargas o ditador implacável, o demagogo sem escrúpulos. Outros viam nele o político com sensibilidade social em relação aos trabalhadores, o governante nacionalista. Impossível era ficar indiferente diante de sua figura.

 Getúlio Vargas
Getúlio Vargas
17º Presidente do Brasil


Imagem:
Wikimedia Commons


Os conflitos que levaram à ruptura oligárquica 

O ano de 1929 foi marcado por uma das maiores crises econômicas do capitalismo mundial. A principal causa dessa crise foi a superprodução da indústria norte-americana que, nos anos seguinte à Primeira Guerra Mundial, cresceu muito, produzindo além das necessidades de compra do mercado internacional e do seu próprio mercado interno. Para se ter uma ideia do Poderio industrial dos Estados Unidos, basta dizer que, no pós-guerra, esse país responde por quase 50% de toda a produção mundial.

Um dos um dos dias mais tenebroso dessa crise foi 29 de outubro de 1929, Quando ocorreu a queda vertiginosa de milhões de ações da Bolsa de Valores de Nova York. As ações perderam quase todo o valor financeiro. Empresas e bancos foram à falência. Com o desdobramento de crise, entre 1929 e 1932, a produção industrial dos Estados Unidos foi reduzido em 45%, deixando milhões de trabalhadores desempregados.

O crack (quebra) da Bolsa de Nova York abalou o mundo, afetando os países que dependia de exportação para os Estados Unidos. foi o caso do Brasil, que deixou vender milhões de sacas de café. neste ano, a produção Brasileira de café havia atingido 21 milhões de sacas, mas a exportação ficaram em 14 milhões. Consequência: o preço do café despencou. os cafeicultores entrar em Pânico. milhares de sacas de café foram queimadas, na tentativa de escassear o produto e segurar o preço. tudo em vão. foi impossível conter o desastre econômico e afetou a cafeicultura brasileira e abalou a estrutura da República Velha.

Uma multidão à porta da Bolsa de Nova Iorque.

Pessoas reunidas na frente de um banco,
durante o período da Grande Depressão.
Imagem:  Wikimedia Commons

Cartão postal em alemão mostra uma cena da queima de café em Santos
"Kaffeeverbrennung in Brasilien"

Foto: 100 Anos de República - Volume IV - 1931-1940, Ed. Nova Cultural, São Paulo/SP, 1989.
Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo



Foto publicada em 31/12/2008 pela revista Época (Ed. Globo/Rio de Janeiro-RJ), com a matéria
'Do café à industrialização'

Queima de café em cidade interiorana, em 1938
Foto: Getúlio Teixeira de Aguiar, publicada em 22/11/2014 no blogue do professor Marciano Dantas (tema: Getúlio Vargas: o presidente que governou por mais tempo o Brasil) e no site Algo Sobre Vestibular (tema: Transformações Econômicas e o Desenvolvimento Industrial pós Golpe 1937), ambos acessados em 2/2/2016

Café sendo embarcado para ser jogado no mar
Foto publicada em Calendário CNT, do Almanaque Pridie Kalendas, sob o tema: Café Um Esboço Histórico (acesso: 2/2/2016)

Café sendo jogado ao mar
Foto publicada em Calendário CNT, do Almanaque Pridie Kalendas, sob o tema: Café Um Esboço Histórico (acesso: 2/2/2016)

Blocos de café para uso como combustível
Foto publicada em Calendário CNT, do Almanaque Pridie Kalendas, sob o tema: Café Um Esboço Histórico (acesso: 2/2/2016)

Mesmo o café inutilizado, que ia sendo depositado na Alemoa para a posterior incineração, era alvo de negociatas, como registrou o jornal santista A Tribuna, na página 6 da edição de 24 de outubro de 1930 (ortografia atualizada nesta transcrição):

Indivíduos inescrupulosos estão se apoderando dos cafés jogados na Alemoa, para os negociar

Um vigia da Inglesa, ontem, apreendeu cinco sacas desse produto

Os indivíduos falhos de escrúpulos, esses que só visam um lucro fácil, sem olhar para os meios a que recorrem, visando aquele fim, lançam mão de todos os recursos, muito embora, com isso, não poucas vezes, atentem seriamente contra a saúde pública.

É o que agora se está passando, mas, felizmente, o manejo já foi descoberto e, por certo, providências serão postas em  prática, evitando prossiga a ação de alguns indivíduos.

Como toda a cidade sabe, o governo, por intermédio do Instituto de Café, determinou fossem jogados, na Alemoa, para a  devida inutilização, quantidades de café.

Como, nestes últimos dias, deixasse de haver, naquele local, a fiscalização que vinha sendo feita, vários indivíduos viram, no caso, ocasião favorável para agir e, assim, durante a noite, às ocultas, retiravam da Alemoa toda quantidade de café que podiam, para vender e, necessariamente, esse café, já estragado, seria dado a consumo, ou mesmo já foi, visto como desde há dias a manobra vem sendo posta em prática, segundo agora ficou descoberto.

Ainda ontem, o rondante dos vigias da S. Paulo Railway, à noitinha, conseguiu apreender cinco sacas daquele café, que já iam sendo transportadas para um auto-caminhão, fugindo, à presença daquele vigia, os indivíduos que foram à Alemoa "negociar" aquele café.

Segundo fomos informados, algumas sacas desse café já teriam sido vendidas.

Trata-se, como se vê, de um sério atentado à saúde pública, caso o café, clandestinamente retirado da Alemoa, seja dado a consumo público, o que sem dúvida será evitado.


Imagem: reprodução parcial da página do jornal




Além dos problemas econômicos, surgiu ainda a ruptura política entre as lideranças de Minas e São Paulo. Não houve entendimento para indicar o candidato presidencial à sucessão de Washington Luís. Nas eleições de 1930, a oligarquia paulista apoiava o candidato Júlio Prestes, do PRP, enquanto os políticos mineiros apoiaram o nome de Antônio Carlos Ribeiro de Andrade, que era governador de Minas Gerais.

O rompimento do acordo do “café com leite”, isto é, o desentendimento entre o PRP e o PRM, agitou o país. A oposição às oligarquias mais tradicionais aproveitou o momento para conquistar espaço político e formar alianças.

Foi nesse ambiente que nasceu a Aliança Liberal, lançando os nomes do governador gaúcho Getúlio Vargas para a presidência da república do governador paraibano João Pessoa para vice-presidente.

Os candidato da Aliança Liberal passaram a ter o apoio de gente de todo tipo. Gente renovadora que queria acabar com o velho esquema político da República Velha, e gente oportunista que queria apenas conservar o poder nas suas mãos, como era o caso do governador de Minas Gerais, Antônio Carlos, que apoiava, agora, a Aliança Liberal, depois de ter rompido com São Paulo.

De qualquer modo, Aliança Liberal apresentava um programa de reformas com alguns avanços, cujos pontos principais eram: a instituição do voto secreto (para acabar com o coronelismo e as fraudes); e a criação de leis trabalhistas; e o incentivo à produção industrial. Era um programa que tinha grande a citação junto às classe média e os militares ligados ao tenentismo.

Washington Luís Pereira de Sousa  (Macaé, 26 de outubro de 1869 — São Paulo, 4 de agosto de 1957)
foi um advogado, historiador e político brasileiro, décimo primeiro presidente do estado de São Paulo, décimo terceiro presidente do Brasil e último presidente efetivo da República Velha.

Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (Barbacena, 5 de setembro de 1870 — Rio de Janeiro, 1 de janeiro de 1946)
foi um político brasileiro, prefeito de Belo Horizonte, presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, senador da República, presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 1932-1933, ministro de estado e presidente do estado de Minas Gerais.
João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (Umbuzeiro, 24 de janeiro de 1878 — Recife, 26 de julho de 1930)
 foi um advogado e político brasileiro

Júlio Prestes de Albuquerque (Itapetininga, 15 de março de 1882 — São Paulo, 9 de fevereiro de 1946)
foi um poeta, advogado e político brasileiro.



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Apurados os resultados da eleição em presidencial de 1930, Júlio Prestes tinha sido vitorioso, derrotando o candidato da Aliança Liberal, Getúlio Vargas.

Os líderes gaúchos, mineiros e paraibanos se recusar a aceitar os resultados das eleições. Dizem dizem que a vitória de Júlio Prestes não passava de uma fraude, um roubo. Na verdade, é difícil de saber quem, dos dois lados, utilizou mais violência e falta para ganhar as eleições. A única certeza  é que a oligarquia paulista foi mais eficiente dos métodos empregados.

O clima de revolta aumentava no país.  Neste momento,  o governador Mineiro Antônio Carlos pronunciou a célebre frase que entrou para a história:  “façamos a revolução,  antes que o povo faça”.  Tal frase mostra que as elites da Aliança Liberal tinha consciência de que era preciso assumir o comando das transformações,  antes que outros grupos sociais ou fizessem,  levando o povo a promover mudanças mais profundas no país. 

Revolta contra as velhas estruturas ganhou força quando João Pessoa,  governador da Paraíba,  foi assassinado por motivos pessoais e políticos,  em 25 de julho.  A morte de João Pessoa foi a gota d'água,  emoção que faltava para unir a oposição contra o governo.

Em 13 de outubro,  a luta armada estourou no Rio Grande do Sul,  espalhou-se por Minas Gerais,  Paraíba e Pernambuco.

Reconhecendo o avanço da guerra civil,  os militares do Rio de Janeiro,  liderado pelos generais Mena Barreto e Tasso Fragoso,  depuseram o presidente Washington Luiz,  no dia 24 de Outubro,  poucas semanas antes do fim do seu mandato.  O poder foi entregue a Getúlio Vargas,  Chefe político da Revolução de 1930.

Terminando a República Velha.  Iniciava-se o período getulista ou a Era Vargas.

Cartaz de campanha de Getúlio Vargas para Presidente da República na eleição de 1930.


Getúlio Vargas, com outros líderes da Revolução de 1930, em Itararé-SP,
logo após a derrubada de Washington Luís.


Getúlio Vargas e João Pessoa.




Missa celebrada em Jequié, Bahia, no dia 15 de novembro de 1930,
por motivo da vitória da Revolução.


Getúlio Vargas no Palácio do Catete em 31 de outubro de 1930, no dia que chegou ao Rio de Janeiro,
após vitoriosa a Revolução de 1930.


Getúlio Vargas em momento de descontração.


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Fases da Era Vargas

A Vitória da Revolução de 30 deu início à nova etapa da história,  que se Estendeu até 1945.  Essa etapa foi marcada pela liderança política do gaúcho Getúlio Dorneles Vargas,  sendo,  por isso,  conhecida como a Era Vargas ou período getulista.

O período getulista pode ser dividido em três grandes fases:


  •  governo provisório 2930 a 1934;
  •  governo constitucional de 1934 a 1937;
  •  governo ditatorial de 1937 a 1944.


Durante esses 15 anos, o Brasil sofreu grandes mudanças:  a sociedade Urbana cresceu em relação a sociedade agrária;  a indústria ampliou seu espaço na economia nacional;  a burguesia empresarial da cidade aumentou o seu poder sobre as tradicionais oligarquias do campo; a classe média e o operariado cresceram em quantidade e conquistaram maior importância na vida política do país.